Vou contar um pouco para vocês como o livro “A menina que Roubava Livros” de Markus Zusak me trouxe de volta a vontade de ler. Então não espere uma resenha do livro, não é meu foco aqui (se quiserem posso indicar ótimos sites com resenhas). Pode conter spoiler, já que para explicar como isso aconteceu, vou ter que citar alguns elementos da história.
Para ambientar um pouco vocês que não me conhecem, eu costumava ser uma devoradora de palavras (sim palavras, não exatamente só livros, meu vicio na infância e adolescência era tamanho, que quando acabavam os livros, os gibis, os encartes, eu pegava até rótulos e bula de remédios para ler). Mas não sei precisar em que momento parei com isso.
Não vou dizer que foi uma tarefa fácil recomeçar, havia tentado isso inúmeras vezes, e tinha conseguido por um tempo com os livros do André Vianco, porém desisti novamente. Mas quando soube desse livro, tive uma vontade imensa de lê-lo e por isso pedi de amigo secreto no final de 2011. Mas alguma coisa me fez começar e parar este livro por três vezes, em cerca de dois anos.
Não sei explicar o que foi, mas sei exatamente o que me fez recomeçar o livro no final de 2013 e finalmente terminar: a força extraordinária dessa personagem Lielse Meminger. Ela tinha vontade de aprender a ler, ela queria mais e mais conhecimento e mundos novos, ela foi capaz de mostrar como palavras mudam o rumo das coisas, para o bem ou para o mal. Como um bom livro pode nos aliviar ou até mesmo nos fazer esquecer esse mundo louco por um tempo e como “os seres humanos me assombram” (palavras da Morte e não minhas, mas é o que penso também).
Para mim um bom livro é o que consegue me prender ao mundo que ele descreve, aos personagens, sem detalhar exageradamente, mas o suficiente para que mexa com minha imaginação e a faça funcionar a todo vapor, e principalmente que mexa com minhas emoções. E Markus Zusak conseguiu me fazer chorar e rir inúmeras vezes, me fez sentir a dor de ser um judeu na época de Hitler, me fez perceber que nem sempre é fácil saber a diferença entre o instinto de sobrevivência e do egoísmo demonstrado de maneira espetacular por Max Vanderburg, que a força de vontade e perseverança tem o seu preço e também dois lados como mostrou Rudy Steiner. Fez-me sentir o carinho e a compreensão de um homem simples através do adorável Hans Hubermann, e que cada um ama de maneira diferente como a nada afável, porém generosa Rosa Hubermann. Ensinou-me também como as cores do céu, os cheiros, os sabores mudam conforme o momento como nos conta nossa narradora, a Morte, durante toda a história.
Esse livro me trouxe tantos sentimentos diferentes que não foi fácil terminá-lo, ora porque eu queria jogá-lo longe e não abri-lo nunca mais para não sentir aquela dor eminente que a Morte anunciava, e ora porque eu não queria chegar naquele momento doloroso de ter que me despedir daquele refugio. Mas aquele mundo me encantava, os roubos, as maneiras de encarar o mundo, a dualidade de um alemão que não era contra os judeus, mas não poderia demonstrar.
Também me fez refletir por horas, a cada nova descoberta que o virar de páginas me proporcionava, como reclamamos muitas vezes de coisas insignificantes, como tem pessoas que vivem em um mar de horrores e conseguem sorrir e colorir o seu céu na parede do porão.
Enfim, cada vez que Lielse lia um novo livro, uma vontade de conhecer um mundo novo, de dar vida a um novo personagem, nascia em mim. Ao terminar este livro, abri meu armário e vi lá, cerca de 70 mundos novinhos, imaculados, com vários personagens aclamando para que eu voltasse a dar vida a eles, como eu costumava fazer.